Mesmo que não tenha açúcar, a cachaça pode parecer doce. Não é mágica, é neurociência.
Você já tomou uma cachaça envelhecida em carvalho ou amburana e disse: “Nossa, que cachaça docinha”? E se eu te dissesse que, quimicamente, essa cachaça não tem açúcar? Pois é. O cérebro humano é capaz de perceber doçura mesmo quando ela não está ali de fato. E o mais fascinante é que isso acontece com frequência nas cachaças bem feitas, principalmente as envelhecidas.
O que está acontecendo?
Nosso cérebro não é uma máquina perfeita que responde apenas aos estímulos químicos. Ao provar uma cachaça, ele não está analisando apenas moléculas; está processando uma experiência sensorial completa, influenciada por visão, olfato, paladar, memória, expectativa e contexto cultural.
Isso significa que, mesmo sem conter glicose ou sacarose, certas cachaças nos parecem doces por causa dos compostos aromáticos formados na fermentação, na destilação e, principalmente, no envelhecimento.
A madeira engana (ou encanta) o cérebro
Barris de madeira brasileira como amburana, jequitibá, ipê-roxo, castanheira e carvalho são ricos em compostos como lactonas, aldeídos, cumarinas, vanillina e eugenol, que não são açúcares, mas ativam áreas do cérebro associadas à doçura.
Esses compostos geram aromas de baunilha, coco, mel, caramelo e especiarias doces. Quando o nariz sente esses cheiros, o cérebro, por associação, ativa a ideia de que aquilo será doce — mesmo que a língua não detecte nenhuma molécula de açúcar.
Ou seja, o cérebro antecipa o sabor com base no cheiro, e isso molda completamente a sua percepção do paladar.
O papel da memória e da cultura
Se você cresceu comendo bolo de fubá, doce de leite, café com rapadura ou canela com açúcar, seu cérebro já criou atalhos sensoriais. Ao sentir uma cachaça com notas que remetem a esses sabores, ele imediatamente preenche as lacunas com doçura.
E mais: o ambiente, o rótulo e até o copo usado influenciam. Uma cachaça artesanal, apresentada com um bom storytelling, em um copinho de vidro pesado, degustada em um alambique, tende a parecer mais rica e mais doce que a mesma bebida tomada às pressas em um copo plástico.
Mas a cachaça não tem açúcar?
Não deveria ter. A legislação brasileira exige que a cachaça tenha no máximo 6 g/L de açúcares, quando adicionados, e a grande maioria das cachaças de alambique não tem adição nenhuma.
As sensações doces, portanto, vêm de outra fonte: da interação entre compostos voláteis e os circuitos cerebrais do paladar e do prazer.
O que isso muda para o produtor?
Tudo. Se você é produtor de cachaça artesanal, entender essa relação entre aroma, sabor e expectativa pode transformar a forma como você cuida da fermentação, da escolha das madeiras e da comunicação da sua marca.
Você não vende só “uma cachaça de amburana”. Você vende uma memória afetiva de infância, uma lembrança de festa junina, uma tarde na roça com doce de abóbora, uma sensação de aconchego. Tudo isso engarrafado.
E para quem bebe?
Você começa a perceber que degustar uma cachaça vai muito além de “força” ou “maciez”. Vai além da graduação alcoólica. É sobre cheiros que contam histórias, sabores que não estão na boca, mas na lembrança, e experiências que parecem doces mesmo quando não são.
Afinal, como bem dizem no mundo da cachaça:
“Não é o açúcar que adoça, é a alma.”