O que esperar de 2026 no mundo da cachaça

2025 caminha para o fim, e eu, Diego Pavão — fundador d’O Alambiqueiro e da Cachaça Pavão — olho para o horizonte de 2026 com aquela mistura de inquietação e esperança que só quem vive o dia a dia da cachaça entende. Depois de atravessar a crise do metanol, lidar com tempestades regulatórias e ver o setor se reorganizar quase que do zero, fica claro que 2026 não será apenas mais um capítulo: será um ano de reposicionamento profundo da identidade da cachaça brasileira.

O primeiro grande desafio está na profissionalização definitiva da categoria. O mercado não tolera mais amadorismo — e, honestamente, isso é excelente. Em 2026, quem não tiver boas práticas consolidadas, rastreabilidade e coerência sensorial pode até sobreviver, mas não vai crescer. A evolução técnica deixa de ser diferencial e passa a ser obrigação. Como mestre blender e como educador no universo da cachaça, vejo claramente que a régua subiu, e subiu para valer.

Também espero uma expansão acelerada do interesse internacional, especialmente com a retomada das feiras globais e a abertura de novos canais de exportação. Mas isso exige algo que ainda estamos aprendendo: contar nossas histórias de maneira estratégica. O mundo não compra apenas uma bebida; compra cultura, terroir, narrativa. E nisso ainda precisamos amadurecer.

No cenário interno, 2026 será o ano em que a palavra “origem” vai se tornar o centro das atenções. Produtores se movimentam para valorizar suas regiões, seus métodos e suas madeiras. Acredito que veremos um crescimento expressivo de denominações, certificações e selos que reforçam a autenticidade. A diversidade de madeiras brasileiras continuará sendo protagonista — e também continuará exigindo estudos, padronização e responsabilidade para não virar moda passageira.

Outro ponto inevitável: a tecnologia finalmente entrou para ficar. Chatbots, automação de atendimento, inteligência artificial auxiliando degustações, rotulagens, controle de qualidade e até previsões de produção. É uma revolução silenciosa que alguns produtores já adotam — inclusive eu, que venho avançando na integração do chatbot d’O Alambiqueiro ao site — e que deve se espalhar com força em 2026.

Mas nenhum desafio será maior do que reconquistar a confiança plena do consumidor. A crise do metanol deixou marcas, e nós, produtores sérios, precisamos trabalhar dobrado para mostrar que a cachaça brasileira é segura, regulada, rastreável e tecnicamente impecável. O consumidor está mais atento, mais crítico e muito mais exigente — e isso é ótimo. Nos obriga a evoluir.

Por fim, vejo 2026 como o ano em que a cachaça vai se consolidar não apenas como produto, mas como patrimônio cultural contemporâneo. Eu, que estou desenvolvendo um projeto cultural via Lei Rouanet justamente para ampliar esse entendimento, percebo que o público está pronto para enxergar a cachaça com os olhos que ela merece: como expressão de um Brasil profundo, plural, sofisticado.

Se 2025 foi um ano de sobrevivência e reestruturação, 2026 será um ano de reconstrução e expansão. Um ano para ousar, para inovar, para qualificar e, acima de tudo, para reafirmar que a cachaça é, sim, uma bebida de classe mundial.

E eu estarei lá — com meu chapéu d’O Alambiqueiro, meu copo sempre ao alcance da mão e a certeza de que, apesar dos desafios, o melhor ainda está por vir.


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