"Da Crise ao Crescimento: A Realidade da Cachaça em 2025 e os Desafios para Cumprir as Diretrizes Nacionais"

 

Em dezembro de 2021, quando a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva da Cachaça apresentou o plano Diretrizes Estratégicas 2021–2025, eu, como produtor, pesquisador e fundador d’O Alambiqueiro e da Cachaça Pavão, enxerguei naquele documento um marco histórico. Pela primeira vez em muitos anos, o setor se reunia para construir um futuro comum, com metas claras, uma visão ousada e um objetivo que sempre acreditei ser possível: ver a Cachaça entre os três maiores destilados do mundo.

O plano se estruturava em quatro pilares fundamentais: comunicação unificada e valorização cultural; rigor técnico e combate à informalidade; profissionalização da governança e das pessoas; e fortalecimento da competitividade com foco em exportação, crédito e sustentabilidade econômica. Era um mapa do que precisávamos fazer — juntos.

Agora, chegando ao fim de 2025, olho para esse período e vejo duas realidades coexistindo: avançamos, sim, mas ainda temos uma longa jornada pela frente. E no meio desse caminho, enfrentamos um dos episódios mais dolorosos da história recente da Cachaça: a crise do metanol, que abalou a confiança do consumidor, trouxe pânico ao mercado e expôs com brutalidade o que eu sempre repito em cursos, palestras e consultorias: a informalidade é a maior ameaça da nossa cadeia produtiva.

A crise não foi apenas um problema técnico — foi humano, cultural, de imagem e de sobrevivência. Ela provou que o combate ao ilícito não é apenas uma pauta econômica: é uma pauta de segurança pública. E reforçou o que as diretrizes de 2021 já alertavam: sem fiscalização séria, sem educação continuada e sem comunicação eficaz, o setor inteiro fica vulnerável.

Como produtor e como formador de opinião dentro da cadeia, posso afirmar: o plano acertou quando priorizou a união setorial. A falta de alinhamento sempre foi — e continua sendo — um dos maiores entraves. A tequila só se tornou um símbolo do México porque o México falou junto. O rum só virou referência no Caribe porque o Caribe se organizou. A Cachaça precisa do mesmo. E essa necessidade ficou ainda mais evidente após a crise.

Outro ponto crucial das diretrizes foi a comunicação. E nesse quesito, ainda engatinhamos. Durante a crise do metanol — quando o consumidor precisava desesperadamente de informação clara e orientação técnica — faltou uma voz única. Faltou narrativa. Faltou coordenação. Isso precisa mudar.

Também avançamos pouco em exportação. Mesmo com um produto rico em terroir, identidade e autenticidade, seguimos exportando menos de 2%. Em pleno 2025, isso já não é apenas um desperdício — é um atraso competitivo. O mundo quer história, origem e verdade; e a Cachaça tem tudo isso. Falta organização e estratégia.

As diretrizes também apontavam a urgência de modernizar processos internos, qualificar produtores e estabelecer padrões técnicos sólidos. Aqui, tivemos evoluções importantes, mas muito ainda precisa ser feito. O produtor legal precisa ser protagonista, não vítima da concorrência desleal. Ele precisa de ferramentas, crédito, capacitação, apoio institucional e, principalmente, segurança jurídica.

E há ainda a questão tributária — histórica, pesada, desigual — que continua sendo uma barreira enorme para pequenos e médios produtores. Sem alívio, não há renovação. Sem renovação, não há futuro.

O documento de 2021 também dizia que precisávamos de dados oficiais. Como alguém que vive a educação e a consultoria técnica, posso dizer: ainda trabalhamos com pouca informação confiável. E sem dados, não existe estratégia.

Mas apesar de tudo isso, sigo otimista. Não por ingenuidade, mas por convicção. Porque mesmo com todos os desafios, a Cachaça se fortaleceu neste período. Ganhou novos consumidores, entrou em novas coquetelarias, conquistou espaço na gastronomia e viu crescer, mesmo que lentamente, o respeito pelo produtor sério.

E acima de tudo, entendeu algo fundamental: não existe mais espaço para amadorismo.

Por isso, ao chegar ao fim de 2025, deixo aqui minha visão — não apenas como empresário, mas como alguém que dedicou a vida a estudar e defender esse destilado:

A Cachaça brasileira não precisa ser reinventada. Ela precisa ser reconhecida. E para isso, precisamos continuar unidos, responsáveis, técnicos e estratégicos. As diretrizes de 2021 foram um começo — não um fim. A crise do metanol foi um alerta — não um fracasso. E 2025 não encerra a jornada — apenas inicia um novo capítulo.

O futuro da Cachaça depende de nós.
E eu sigo aqui, todos os dias, fazendo minha parte.

 Diego Pavão
Fundador do O Alambiqueiro
Criador da Cachaça Pavão

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