Cachaça de Paraty

Cachaça de Paraty

Paraty: quando a cachaça virou ativo econômico — e agora patrimônio de origem do Brasil

A partir de 1600, a história da cachaça brasileira começa a ganhar contornos industriais nas terras de Paraty. Ainda que não tenha sido pioneira na produção da aguardente de cana, a cidade fluminense rapidamente se consolidou como o mais relevante polo produtor do Brasil Colônia — seja pela qualidade de suas terras, pela abundância de águas e lenhas, ou pelo domínio técnico da arte da alambicagem.

Paraty transformou a cachaça em um verdadeiro ativo estratégico. Na Corte e na Colônia, pedir uma dose de aguardente era, na prática, pedir uma cachaça de Paraty. O nome da cidade tornou-se sinônimo de qualidade, reputação e valor.

Segundo relatos do Monsenhor Pizarro e de diversos historiadores, a cachaça produzida em Paraty alcançou tamanha notoriedade que passou a custar mais caro do que qualquer outra comercializada no país. Sua relevância socioeconômica foi tão expressiva, desde o início do século XVIII, que “Paraty” passou a designar a própria bebida — um feito raro, mantido até meados do século XX.

No auge, mais de 100 alambiques operavam no município. Hoje, resistem alguns guardiões dessa tradição, entre eles:

  • Cachaça Coqueiro

  • Cachaça Corisco

  • Cachaça Maria Izabel

  • Cachaça Paratiana

  • Cachaça Pedra Branca

  • Cachaça Engenho D’Ouro

Indicação Geográfica: quando território vira valor econômico

A Indicação Geográfica (IG) é um instrumento jurídico previsto na Lei da Propriedade Industrial (1996) que protege nomes geográficos associados a produtos com identidade própria. Na Europa, mais de 3 mil produtos agropecuários já carregam esse selo. No Brasil, a certificação ainda é recente — e estratégica.

A IG gera confiança, fidelização e posicionamento premium. Ao consumidor, garante origem e qualidade. Ao produtor, proteção legal e diferenciação de mercado.

Em 2007, a Cachaça de Paraty conquistou o selo de Indicação de Procedência (IP), assegurando que apenas os destilados produzidos no município pudessem estampar em seus rótulos o nome “Paraty”. Um marco histórico: Paraty tornou-se a primeira cachaça brasileira a receber uma Indicação Geográfica.

Paraty conquista Denominação de Origem e eleva o status da cachaça brasileira

Em 30 de janeiro de 2024, o INPI oficializou a evolução desse reconhecimento: a cachaça de Paraty passou de Indicação de Procedência (IP) para Denominação de Origem (DO) — o mais alto nível de certificação territorial existente.

Com a decisão, o Brasil passou a contar com 120 Indicações Geográficas registradas, sendo 85 IPs e 35 DOs, das quais 26 são nacionais. Paraty entra, assim, em um seleto grupo de produtos cuja identidade é considerada inseparável de seu território de origem.

A conquista reflete a singularidade ambiental e cultural da região. Fatores naturais como o relevo da Serra do Mar, a elevada pluviosidade e as altas temperaturas influenciam diretamente a cana-de-açúcar local, resultando em menores teores de sacarose e maior presença de compostos que impactam o perfil sensorial da bebida.

Durante a fermentação e a destilação, esses elementos se traduzem em notas características de picância, pungência e doçura, formando um conjunto sensorial impossível de ser reproduzido fora daquele território.

A isso se somam os fatores humanos: saberes transmitidos por gerações, cultivo manual, uso de adubação orgânica, baixa mecanização e destilação lenta em alambiques de cobre, com rigor absoluto na separação do “coração” do destilado. O resultado é uma cachaça de identidade única, com sensação alcoólica equilibrada e dulçor natural — agora oficialmente reconhecida como expressão exclusiva de Paraty.

Tradição líquida em forma de experiência

Para quem visita a cidade e deseja levar consigo um fragmento dessa história líquida, a Laranjinha Celeste é parada obrigatória. Inspirada em um dos destilados mais emblemáticos do período colonial, incorpora folhas de laranjeira no processo produtivo, resultando em coloração azulada e aroma cítrico singular.

Mais do que uma bebida, trata-se de um exemplar que traduz o espírito da cachaça brasileira: território, técnica, memória e identidade.

Agenda estratégica

Agosto — Festival da Cachaça, Cultura e Sabores de Paraty

Um evento que reafirma Paraty não apenas como destino turístico, mas como território de valor cultural, econômico e simbólico da cachaça brasileira.

Consulte também:
APACAP
Festival da Cachaça (antigo Festival da Pinga)

Voltar para o blog

Deixe um comentário